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Medicina no Paraguai: UCP se transforma na maior universidade do Paraguai

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17/12/2017 às 19:32:00

Herpes-zóster, a doença causada pelo vírus da catapora que pode ser ativada pelo estresse

Redação
Herpes-zósterDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDoença causada pelo vírus da catapora pode ser ativada pelo estresse

Em outubro de 2015, a paulistana Camilla Conde passava por um momento de extrema tensão. Seu empreendimento recém-aberto no bairro de Pinheiros, em São Paulo, havia ido à falência e o seu casamento, chegado ao fim. Com o estresse, a imunidade baixou e a empreendedora desenvolveu um quadro de herpes-zóster, uma doença que faz explodir bolhas na pele, causa uma dor aguda e pode deixar sequelas permanentes.

"Eu estava sem dinheiro, com dívidas, desempregada e com uma criança de dois anos para cuidar", relembra.

Os primeiros sintomas pareciam o de uma reação alérgica. "Percebi algumas bolinhas na região das costas e achei que fosse uma alergia. Mas elas começaram a aumentar e migrar para a região do peito. Aí começou a doer, e muito", afirma.

Uma semana após os primeiros sintomas, Conde foi ao pronto-socorro, mas a médica que a atendeu desconhecia a doença e receitou uma pomada para herpes simples.

Embora tenham o mesmo nome, herpes e herpes-zóster são doenças totalmente distintas. A primeira é provocada pelo germe HSV-1, enquanto a segunda é resultado da ação do vírus da catapora.

Ilustração de herpes-zósterDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionMédica diz que vírus fica alojado na região do tórax ou do abdômen e se manifesta quando há queda da imunidade

"A pomada não resolveu. As bolhas aumentaram e começaram a estourar", relembra. Nesse estágio, a dor era "insuportável", relembra Conde, que buscou um novo médico. Dessa vez, com diagnóstico certo, ela foi submetida a tratamento e teve de ser afastada por 15 dias do trabalho no qual havia recém-começado.

A dor aguda, afirma, durou semanas e parte dela permanece até hoje, dois anos após a doença. "Quando o tempo muda bruscamente, sinto pontadas onde havia as bolhas", diz.

A herpes-zóster

A herpes-zoster é uma doença infecciosa causada pelo vírus varicela-zóster - o mesmo responsável pela catapora. Geralmente adquirido na infância - momento em que a maioria dos brasileiros manifesta as feridas clássicas e a coceira da catapora -, ele pode ficar anos dormente no organismo e "acordar" a qualquer fase da vida. Quando desperta, o vírus faz surgir dolorosas bolhas pelo corpo.

"O vírus fica alojado em gânglios nas regiões do tórax ou do abdômen e um dia, por causa da queda da imunidade ou porque a pessoa está mais velha, ele aparece como herpes-zoster", explica Maisa Kairalla, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Mesmo aqueles que não tiveram catapora na infância podem desenvolver a doença na vida adulta. "Não precisa ter tido a doença, basta contato com o vírus. E a população brasileira é muito exposta a ele - 94% está infectada com o varicela-zóster", afirma.

Camilla Conde
Image captionEmpresária teve herpes-zóster durante crise de estresse

A doença é mais comum após os 50 anos - no entanto, o diagnóstico em jovens tem sido frequente, afirma Kairalla. O estresse, diz a médica, é um dos fatores que vem mudando o perfil daqueles afetados pela infecção e fazendo a doença aparecer cada vez mais cedo.

"Estamos vendo a doença em mais jovens, vejo muito naqueles em pré-vestibular", diz a médica. "Tudo o que diminui a imunidade pode levar a herpes-zoster. O estresse acorda o vírus."

A única maneira de prevenir a infecção, que pode ocorrer várias vezes, é por meio da vacinação. O imunizante, contudo, não é 100% eficaz, está disponível somente na rede privada e custa, em média, R$ 450.

Tratamento

A doença pode deixar sequelas, que vão de cicatrizes a cegueira e surdez. Também é comum a neuralgia pós-herpética, conhecida como nevralgia, uma condição dolorosa que é ativada na maioria daqueles que desenvolvem a herpes-zoster e que pode durar vários anos. A condição pode ser tão intensa que afeta movimentos simples, como vestir-se ou levantar-se da cama. É essa dor que Conde ainda conta sentir.

O tratamento envolve medicamentos antivirais e analgésicos e, quanto mais cedo o paciente buscar o hospital, maior as chances de sucesso. O princípio ativo utilizado para conter a herpes-zoster, o aciclovir, evita a expansão das lesões, mas só tem efeito se tomado até 72 horas após o aparecimento dos sintomas. Por isso, rapidez na busca de ajuda é essencial.

"Após 72 horas, não pode mais usar o remédio, então a demora no diagnóstico pode levar à perda do timing de tratamento. Quando isso acontece, trata-se a dor e as outras características, mas não a doença", explica Kairalla.

Costas de idoso com hespes-zósterDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA doença é mais comum após os 50 anos - no entanto, o diagnóstico em jovens tem sido frequente, afirma médica

Porém, o desconhecimento da doença pela maioria dos médicos e pacientes gera diversas visitas ao hospital - como ocorreu com Conde - o que prejudica o tratamento, afirma Kairalla.

"Em média, três médicos são procurados para o diagnóstico", aponta, citando dados de um estudo que conduziu em 2012 com 2.030 idosos na cidade de São Paulo, durante seu mestrado na Unifesp.

Gravidez

A doença também pode aparecer na gravidez, uma vez que a gestação afeta o sistema imunológico da mãe. Os mesmos mecanismos fisiológicos para o organismo materno não rejeitar o bebê também suprimem a resposta imune do corpo - o que abre caminho para o varicela-zóster despertar.

O tratamento na gravidez, contudo, fica comprometido. A jornalista Deborah Moratori, de 38 anos, teve a herpes-zóster há quatro anos, quando ficou grávida de seu primeiro filho.

Por causa da gestação, não pode tomar a medicação antiviral que evita a expansão das lesões da herpes-zóster e apenas aplicava pomada nas bolhas. "É uma doença complicada porque é muito dolorosa e, com a gravidez, é pior ainda, porque você tem medo daquilo afetar o seu bebê", relembra. Normalmente, a doença não costuma provocar sequelas no feto.

Faltam dados

A herpes-zoster não é de notificação compulsória, o que significa que hospitais e postos de saúde não precisam comunicar o Ministério da Saúde sobre casos da doença. Com isso, acredita-se que o governo não saiba de fato quantos casos ocorrem por ano.

O Ministério da Saúde hoje apresenta os casos totais de infecção pelo varicela-zóster, sem separar o que é catapora do que é herpes-zóster. Em 2016, houve 60.955 casos de varicela no país, segundo o governo.

O número representa uma forte redução em relação ao registrado em 2012, quando 151.380 pessoas foram diagnosticadas com varicela. A queda mais expressiva foi entre crianças de 1 a 4 anos que, a partir de 2013, passaram a receber gratuitamente pelo SUS a vacina contra a catapora incluída na tetra viral - que protege também contra o sarampo, a caxumba e a rubéola.

No entanto, enquanto os casos de varicela caíram 76% em crianças abaixo dos 4 anos em 2016 comparado com 2012, ela aumentou 30% naqueles acima dos 50 anos - que não são imunizados.

Questionado sobre a falta de vacinação para adultos para o varicela-zóster, o Ministério da Saúde afirmou que oferece gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) todas as vacinas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Segundo o Ministério, também não há pedido de incorporação da vacina na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, que avalia os benefícios da oferta de produtos para a população.

Prevenção

A única forma de prevenir a herpes-zóster é por meio de uma vacina contra o varicela-zóster na vida adulta. Desde 2014, o Brasil conta com uma, a Zostavax, produzida pela Merck Sharp & Dohme Farmacêutica Ltda.

No entanto, o produto está disponível somente na rede privada e tem indicação apenas para aqueles acima dos 50 anos. Pessoas antes dessa faixa etária, como Conde e Deborah, não são elegíveis para o imunizante.

"A bula recomenda a vacina para a partir dos 50 anos e não há estudos sobre o seu efeito em pessoas abaixo dessa faixa etária. Na minha prática clínica, nunca fiz antes [vacinar uma pessoa abaixo dos 50 anos]", afirma Kairalla.

Homem toma vacinaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionMinistério da Saúde diz que também não há pedido de incorporação da vacina na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS

A vacina, contudo, não é sinônimo de proteção total. De acordo com a fabricante, o produto tem eficácia média de 70% - o que significa que três em cada dez pessoas que tomam a vacina podem vir a desenvolver a doença ainda assim.

No entanto, ressalva Kairalla, sua administração pode evitar a neuralgia pós-herpética, a condição dolorosa que pode permanecer após a doença.

Em outubro, os Estados Unidos aprovaram um novo imunizante, a Shingrix, produzida pela GlaxoSmithKline. A vacina também é recomendada para aqueles acima dos 50, mas promete eficácia maior contra a doença, de 90%. Não há previsão de quando o produto deve chegar no Brasil.

Conde, que não pode se vacinar, afirma que é importante que as pessoas falem mais sobre a doença, que é mais comum do que se pensa. Em sua empresa, quatro pessoas já tiveram a herpes-zóster e o filho de uma funcionária também foi diagnosticado recentemente, diz.

"Isso tem a ver com o nosso estilo de vida, de muito estresse, que está fazendo a doença afetar pessoas mais jovens", diz. "Acaba sendo mais comum do que a gente imagina, mas é algo que a gente só vai buscar saber quando tem porque se fala pouco disso."

bbcbrasil
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